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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Viagem Literária

Júlia, professora de literatura, alta, magra é apaixonada pelos escritores do século XX, especialmente os que renovaram a literatura brasileira na década de 1930.
Como o personagem de Meia Noite em Paris, Júlia sonha em encontrar os autores que mais admira. Viaja em uma máquina do tempo e desembarca na Livraria José Olympio no centro da cidade maravilhosa em 1937 e dá de cara com Zé Lins, Jorge Amado, Graciliano, Drummond e Bandeira.
Fica perplexa, escorre uma lágrima dos olhos amendoados, mas tenta se conter:
— Não é possível! Caramba, consegui! Estou na frente de meus mestres! Respira fundo, Júlia! O coração parece que vai saltar do peito.
Júlia toma coragem e se aproxima dos escritores, que conversam animadamente sobre literatura e política.
— Com licença, meus mestres. É um prazer conhecê-los.
Os escritores convidam a professora a se juntar ao grupo e a mulher de cabelo acobreado treme de emoção.
— Jorge, adoro seus livros. Mar Morto é uma obra prima. Jubiabá também.
Amado agradece e autografa um exemplar da narrativa lírica e trágica de Lívia e Guma e Graciliano realiza o sonho de Júlia de ter um exemplar do segundo romance do brilhante escritor alagoano assinado pelo mestre.
Graciliano fica tímido quando a moça diz:
São Bernardo é meu livro de cabeceira. Magistral o drama de Paulo Honório e Madalena. Sua capacidade de retratar o psicologismo dos personagens é fantástica. Angústia é espetacular.
—Deixe de bestagem. Meu terceiro romance tem muitos erros. Mas obrigado por ler meus livros.
— Ela tem razão, responde Zé Lins. Você é o nosso Dostoievski.
Júlia aproveita para elogiar Menino de Engenho, um primor do memorialismo brasileiro, e diz:
— Também sou Flamengo, Zé Lins!
Graciliano torce o nariz e o escritor paraibano comemora:
— Oxente! Uma senhorita que gosta de futebol. Você tem bom gosto, minha filha.
— Obrigada, Zé Lins. Nosso time ainda vai conquistar o mundo.
Júlia se dirige ao poeta magro e tímido.
— Adoro “Infância” e “Poema de Sete Faces”, Drummond.
— Obrigado, diz o grande poeta, que encantaria gerações.
— Bandeira, gosto muito de seu livro Libertinagem.
— Você é muito gentil, senhorita.
— Adorei poder conversar com vocês.
— Foi um prazer, moça bonita, responde Jorge.
Todos se despedem da professora com cordialidade.

Júlia dá adeus aos grandes nomes da literatura brasileira, sai da histórica livraria na famosa Rua do Ouvidor e num passe de mágica está no jardim de sua casa, cercada por rosas, margaridas e azaleias, se sentindo imensamente feliz por esse encontro inesquecível.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Centenário de Jorge Amado: a importância do prazer da leitura na formação do leitor


HCentenário de Jorge Amado: a importância do prazer da leitura na formação do leitor

            Hoje é o centenário de nascimento de um dos maiores escritores brasileiros do século XX: Jorge Amado.
            A obra do escritor baiano foi fundamental na minha formação como leitora. Quando eu ainda era adolescente, autores como Jorge Amado, Fernando Sabino e Zélia Gattai me mostraram como é bom ler.
            Capitães de areia foi um dos primeiros romances brasileiros que li. Gostei tanto da narrativa ágil e das aventuras de Pedro Bala e Dora que redescobri o prazer de ler literatura brasileira (antes preferia ler Agatha Christie) e comecei a me interessar não só por outros livros do escritor baiano, mas também por outros mestres da literatura como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Machado de Assis. Vou comentar sucintamente alguns romances de Amado que me marcaram e me fizeram descobrir a Bahia e entender melhor o Brasil.
            Gabriela, cravo e canela me encantou ainda na adolescência com a história de amor de Gabriela e Nacib e o universo dos coronéis do cacau (também retratado com maestria em Terras do sem fim). Recentemente reli o livro para compará-lo com a atual adaptação para TV da narrativa amadiana. Agora mais madura, percebi melhor a importância de figuras femininas como a sensual Gabriela e a inteligente Malvina no romance. Malvina é um grito pela liberdade feminina em plena década de 1920, querendo casar por amor, estudar e trabalhar. Gabriela quer ser livre e viver sem se preocupar com as convenções sociais. Além disso, Mundinho Falcão representa a modernidade em oposição ao pensamento tradicional e violento dos coronéis, que acham que podem mandar em tudo e até matar. A condenação do coronel Jesuíno pelo assassinato da esposa Sinhazinha e seu amante mostra essa mudança e se enquadra na luta pela liberdade tão marcante na obra amadiana.
            Minha admiração por Jorge Amado aumentou ainda mais quando li Mar Morto — que hoje considero o melhor romance do autor baiano —  e Jubiabá , já na época em que cursei a faculdade de Letras da PUC. Adorei a linguagem lírica e sensível com que a história de Guma e Lívia é narrada, sem falar na discussão de problemas sociais como a falta de investimento em educação e as condições de trabalho dos pescadores e na força de mulheres tão diferentes como Lívia e Rosa Palmeirão.
            Vi uma professora da UFBA falar de Jubiabá em um seminário na PUC e corri para a biblioteca para lê-lo. Valeu a pena. Adorei a história do negro Antonio Balduíno. É notável que Amado coloque um personagem negro como protagonista sem vitimizá-lo e ainda descreva com maestria a cidade de Salvador nesse livro.
            O humor é outra faceta marcante na obra de Jorge Amado e está presente em obras como nos romances O sumiço da santa, Dona Flor e seus dois maridos e na aclamada novela A morte e a morte de Quincas Berro d'água. Nessas obras há elementos fantásticos e nas duas últimas a figura do malandro ganha destaque e a preocupação social tão característica das narrativas do autor publicadas na década de 1930 perde força.
            É exatamente o talento para tratar de temas universais como amor e a liberdade e retratar diferentes personagens — coronéis, meninos de rua, prostitutas, malandros, professores, moças de família, estivadores, pescadores, pais de santo — indo do trágico ao cômico — que faz com que Jorge Amado desperte o prazer de ler em leitores do mundo todo e mostre toda a riqueza da cultura brasileira.